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O Gronsúvio
Autor: Aguinaldo Valença, o Guiné
Publicado dia 25 de Maio de 2011

O Gronsúvio


Pelos idos de 1970, houve uns abalos sísmicos na cidade de Caruaru – PE, os quais foram apelidados de “Os Estrondos de Caruaru”. Até hoje não se sabe ao certo quais as causas que provocaram o fenômeno que fez a natureza se rebelar. Segundo os sismólogos, a razão mais provável foi uma acomodação das placas tectônicas por conta de um braço de mar subterrâneo existente na cordilheira que vai do litoral até a cidade de Arcoverde, passando pela cidade de Belo Jardim, e supõe-se, também, estender-se até a pequena São Bento do Una, onde fica localizado o famoso serrote do Grongonzo, um dos pontos turísticos daquela localidade.

A falta de informações concretas sobre o assunto, a princípio, alarmou a população do agreste pernambucano. Motivo suficiente para conjecturarem-se sobre toda a sorte de desastres naturais ou mesmo castigos da natureza. Os tementes a Deus tinham certeza de que se tratava de uma represália do Senhor que demonstrava descontentamento pelo aumento de pecadores daquela urbe, em face da chegada da minissaia e do iê-iê-iê. Os céticos galhofavam dizendo que para Caruaru se tornar a capital do estado de Pernambuco, só faltava o mar, porque em cultura, desenvolvimento e inteligência o povo superava de longe o de Recife. Sem falar na vantagem pela proximidade com o sertão, onde facilitaria por demais a vida do sertanejo no que se refere à educação, saúde, menores gastos com locomoção, logicamente, menor tempo para as compras, bem como maior aproveitamento dos fins de semana frequentando uma das tantas praias que ali surgiriam. Não mais haveria necessidade dos praianos dirigirem-se à Tamandaré ou Porto de Galinhas, cidades praianas, mais distantes. Concretizavam-se ali as profecias de Antônio Conselheiro, sobre o sertão virar mar.

Da cidade de São Bento do Una que dista daquela, apenas a 84 quilômetros, ouviu-se o estampido. A população de tanto ouvir conversas sobre o que poderia advir, não perdeu tempo em alardear que Ali, em pleno serrote do Grongonzo, estava prestes a entrar em erupção, um vulcão semelhante ao Vesúvio da Itália, ou mesmo outro de formação cônica. Justificavam:- Ora, se estão dizendo que os estrondos foram provocados pela acomodação de placas tectônicas e os vulcões tendem a formar-se às margens das mesmas, constituindo-se numa estrutura geológica criada quando o magma, gases e cinzas escapam para superfície terrestre, por que duvidar que esse vulcão não possa eruptir aqui em São Bento? O boato espalhou-se com a magnitude da bomba atômica. Atingiu as cercanias e logo estava presente em todo o nordeste. O povo inquietou-se. As novenas de Frei Damião, ícone maior da representação divina na região não tinha espaço para comportar o número de pecadores arrependidos dos seus deslizes. Um grupo de moradores do município, liderado pelo senhor Carmo Lima, um caruaruense que residia na cidade, notando o desespero daquela gente, tratou de promover uma reunião no bar de Miguelito para deliberarem sobre o assunto. Todos cientes da devastação que advêm da erupção de um vulcão. Ou seja: a destruição do solo acabando com a agropecuária, a perda dos imóveis pela desvalorização, aniquilamento do turismo, as consequências danosas à saúde da população por causa da poluição atmosférica, o gasto do dinheiro público na reconstrução da cidade, etc.

A reunião foi iniciada com a presença de umas vinte pessoas, dentre elas, autoridades política, eclesiástica, comerciantes, fazendeiros, granjeiros, jogadores de baralho profissional e outros cidadãos. O líder do grupo explicou que a princípio iniciaria os trabalhos com um brainstorm (espaço livre para criação ou sugestões) e que o primeiro tema grassava sobre o nome de batismo do vulcão. Um dos participantes perguntou: - esse tal de brainstorm, que mal lhe progunte, é de comer ou de beber? Mesmo assim, depois de algumas discussões, foi aprovado o nome do vulcão: “O GRONSÚVIO” em homenagem ao ponto turístico.

Imaginação não faltou àquela equipe. O povo na praça, em frente, esperava amedrontado o desfecho da reunião para saber o que fazer.

Discussões foram muitas.

O líder do grupo reivindicou que o vulcão fosse eclodir na sua cidade natal, Caruaru, pois foi lá onde se sentiu o primeiro estremeção. Reivindicação negada pela maioria, sob a alegação de que o vulcão era coisa nossa, da nossa cidade e ninguém o tascaria. Caruaru já iria ser agraciado com o mar, por conseguinte iria ter praias tão lindas quanto as do litoral.

Outro componente, ainda frangote, de mente precoce, ligado a esportes, sabendo que um vulcão é um fenômeno natural com influências mundiais, sugeriu fazer alterações nas regras do futebol do mundo, com vista a lhes proporcionar poderes amplos e irrestritos, capazes de atingir a população do planeta, trazendo-lhes inúmeros benefícios, sejam culturais, econômicos, etc. Ditos poderes teriam tanta força, quiçá, de parar uma erupção vulcânica a qualquer tempo. Sugestão adiada sine die.

Não tardou, começaram a sair os resultados dos assuntos discutidos. Sobre a agropecuária, falou-se que ao depender do tempo de duração da erupção é que se podiam dar as soluções, pois se a demora fosse pouca o solo voltaria a ser produtivo e seria melhor do que era antes, consequentemente com uma agropecuária mais forte. Sobre a perda dos imóveis, era também questão de tempo, pois o governo empreenderia uma ação conjunta com a população para a construção de uma cidade nova a leste do vulcão, planejada, livre de lixo, com toda infra-estrutura, onde teria hospital, maternidade, escolas com professores bem pagos, uma polícia atuante, enfim, tudo de primeiro mundo e com imóveis mais modernos. Acabar-se-ia o saudosismo. O turismo seria explorado de forma a permitir que os visitantes vissem de perto a cratera e o lançar das suas lavas. Para viabilizar tal ação, bastava que os guias e os visitantes usassem roupas de amianto com uma cúpula na cabeça, semelhante a do ET – A dificuldade seria encontrar forma adequada para aquelas cabecinhas. Além disso, teria também a exploração das águas termais que normalmente fluem juntamente com uma erupção vulcânica. Quanto ao gasto do dinheiro público, com a justiça funcionando corretamente na cidade, as verbas seriam empregadas de forma correta e honesta para os fins a que se destinam e todos passariam a se beneficiar. Por fim, seria instituído um royalty para a comuna, por conta do condutor dos produtos vulcânicos cidade abaixo até o mar, ser o Rio Una, nascido naquele município.

Faz quarenta anos desses estrondos e nada do imaginado aconteceu.

Tudo continua com dantes, inclusive a crença e a imaginação do povo.

O sonho acabou. Mas que teria sido bom, isso teria! Um vulcãozinho de pequenas proporções, por um determinado tempo, melhoraria muito a situação da minha terra, sem contar que ficaria a mesma, conhecida do mundo inteiro.

Confesso que me agradaria mais um vulcão, do que uma idéia de algum bestunto de construir uma usina de lixo para aproveitamento da farta matéria prima.

Ainda boto fé.

Aguinaldo Valença, o Guiné
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2011.


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