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Coluna - A Moreninha
Publicada dia 17 de Setembro de 2006

A Moreninha

Não se trata, evidentemente, do homônimo e famoso romance da literatura brasileira. A “Moreninha” a que me refiro “nasceu” nos recônditos dos porões do “Esperança em Deus”, a famosa e versátil loja do polivalente Zé Manso, ou Zé Lelê, vidraceiro, lojista, boêmio, músico e químico maquiavélico, filho do lendário Quinca Lelê, proprietário do sítio onde existia o poço matador de gente afogada, irmão do não menos famoso e superdotado More, pai de Toinho, aquele que comprou dez sacos de confeito para o próprio consumo.

A “Moreninha”, cuja fórmula ninguém jamais viu, foi talvez uma das bebidas mais saborosas e violentas de que se tem notícia. Da sua fórmula homicida, sabia-se constar uma medida de canela – só isso. O álcool, é óbvio, era um dos principais componentes, mas e o restante? Jamais se descobriu o que diabo Zé Manso punha em sua diabólica bebida. A “Moreninha” era atraente, convidativa, daí o seu grande perigo. Dos desafiantes, enfrentados pela “Moreninha”, nenhum ficou para contar a história. Um conhecido nosso, jovem de grande resistência alcoólica por demais comprovada, não foi além da quarta dose. Do famoso e formoso bloco carnavalesco “Rio Negro”, depois de uma rápida passagem pela casa de Zé Manso, no segundo dia do carnaval de quarenta e seis, restou apenas o estandarte, jogado dramaticamente à calçada. Todo o elenco do “Rio Negro” foi de água abaixo. Diante do efeito do seu bloco estendido ao longo do meio-fio, Henrique Funileiro, idealista fundador da agremiação, teria pronunciado o maior desabafo de sua vida: “Isso não é coisa que se faça. Acabaram o meu bloco. Essa bebida tem parte com satanás”. O “Rio Negro” somente voltaria aos carnavais dois anos depois. A Rua João Pessoa, no entanto, foi riscada do seu roteiro.

A “Moreninha” marcou época em nossa cidade. O inventor da bebida, pelo que se via, parecia imune aos efeitos devastadores da bebida. O Dr. Silvana são-bentense teria, em seu próprio benefício, descoberto um remédio, um antídoto que, diziam, neutralizava os efeitos da “Moreninha”. Atestava isso a sua permanente sobriedade, embora fosse do conhecimento de todo mundo que o indigitado químico jamais deixou de consumir a sua “ração” diária do produto.

Zé Manso já morreu. Lamenta-se, no entanto, que o maquiavélico guru não tenha deixado anotada a fórmula dessa bebida de efeito devorador.

(Extraído do livro “Crônicas”, de Leone Valença, pág. 102 e 103)


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