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Coluna 121: Pingos de história do Império Brasileiro (8)
Publicada dia 23 de Fevereiro de 2008

Pingos de história do Império Brasileiro (8)

Em 1854, José Bento da Cunha e Figueiredo, Visconde de Bom Conselho, governava a Província de Pernambuco. Ele havia sido nomeado por carta imperial, tendo tomado posse em 23 de abril de 1852 e no ano seguinte sancionou a lei que elevou a povoação de São Bento à categoria de freguesia, subordinada a então Vila de Santo Antônio de Garanhuns. Essa personalidade de nossa história nasceu na Vila da Barra do Rio São Francisco, na antiga Comarca do Sertão pertencente a Pernambuco e que nos foi tomada por um ato inconstitucional assinado pelo imperador Pedro I em represália ao movimento revolucionário pernambucano de 1824. Antes, em 1817, a Província de Pernambuco já tinha perdido a Comarca de Alagoas, por ato de D. João VI, também em represália ao movimento republicano daquele ano.

De notar que após o fracasso da Revolução Praieira de 1848, Pernambuco experimentou um período de estabilidade. Assim, todos os esforços voltaram-se para o desenvolvimento da província. Em 1855, ou seja, cinco anos depois de Norberto Joaquim José Guedes haver concordado em ceder o terreno para a construção do maior cemitério do Recife, num ato de desprendimento, pois que nada cobrou pela cessão a título gratuito de parte de seu sítio em Santo Amaro, hoje região central do Recife, já havia nas proximidades, desde 1814, o Cemitério dos Ingleses. E como já dissemos no ensaio anterior, esse gesto de desprendimento de Norberto Guedes não teve uma contrapartida por parte do poder público, uma vez que no Recife não existe rua alguma com o nome desse benfeitor. Naquele tempo, com a Igreja ligada ao Estado, cabia a autoridade religiosa administrar o campo santo. Assim, a igreja só admitia o sepultamento de pessoas que professassem sua doutrina. Houve um caso de triste memória em que o bispo de Olinda, Francisco Cardoso Aires, não permitiu que o corpo do general José Inácio de Abreu e Lima, que lutou ao lado de Simon Bolívar, fosse sepultado em Santo Amaro, sob a alegação de que esse militar era ateu. O fato é que o libertador sul-americano teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses que aceitava não só seguidores do anglicanismo, como as demais minorias religiosas.

O ano de 1856 começou com um grande mal assolando o povo, especialmente as camadas mais pobres de Pernambuco. No dia 29 de fevereiro, um relatório da comissão de higiene pública registrava os estragos causados com a morte de 97 pessoas. Ao todo o número de falecimentos chegou a 977. Um hospital provisório foi montado no Arsenal de Marinha para abrigar os doentes, muitos deles eram provenientes de barcos que haviam atracado no Porto do Recife. No interior da província, a epidemia também fez muitas vítimas que levou à morte muita gente por desidratação, devido aos vômitos e diarréia.intensa

Em Ipojuca, os cadáveres desciam pelo rio do mesmo nome após as enxurradas. Cemitérios foram construídos às pressas, com a mão-de-obra escrava cedida pelos proprietários de engenho. Estima-se que cerca de 30 mil pessoas morreram vítimas dessa epidemia.

Já naqueles longínquos tempos, a imprensa publicava relatórios da polícia provinciana mostrando as marcas da violência que grassava contra pessoas. Pernambuco era considerado um dos locais mais violentos do País. A edição do Diário de Pernambuco do dia 14 de julho de 1856 foi dedicada ao relatório apresentado pelo ministro da Justiça, José Tomás Nabuco de Araújo, a respeito da criminalidade registrada desde o início da década. Em número de homicídios, a nossa província ocupava a terceira posição, com 298 assassinatos, contra 310 de São Paulo e 446 de Minas Gerais.

Para o leitor comum, era a “Página Avulsa” do Diário de Pernambuco que trazia informações que poderiam ser comentadas durante o dia no trabalho ou nas reuniões noturnas em casa de amigos. A seção era um misto de coluna social, mexericos e de cobrança às autoridades públicas e começava sempre começava com  um “Bom Dia”. De mais a mais a “Página Avulsa” trazia observações a respeito do dia a dia da cidade, inclusive da existência de travestis que assaltavam pessoas à noite conforme vemos a seguir: “Temos denunciado por várias vezes, como eco fiel da opinião púbica, os assaltos que hão dado em diversas casas e nas bolsas de alguns indivíduos, os membros famigerados da célebre companhia do Tiro, os quais, à noite, costumam transtornar a ordem regular da natureza, trajando as vestes que caracterizam o sexo que representa as graças e a fraqueza, posto que estas vestes, de que elas usam, sirvam hoje de ordinário pra ocultar alguma forma outrora notável. Não obstante, algumas provas que temos apresentado a este respeito, contudo há quem duvide das ocorrências deste gênero, que tem sido publicadas já por nós, já por outras folhas desta cidade. Entretanto, antes de ontem, pela volta de oito para nove horas da noite, foi preso na rua do Queimado, por um encarregado da polícia, certo sujeito de saia e timão. É um fato incontestável que tirará as dúvidas que a esse respeito ainda nutrem alguns espíritos incrédulos”.  Esse comentário era ilustrado com um desenho de um rosto de homem, de feições jovens, com barba e bigode crescidos, adornado com brincos e colares, além de uma vasta peruca em forma de um jerimum de caboclo. O ano de 1856 não foi bom  para a imprensa, pois muitas edições deixaram de circular por falta de pessoal nas oficinas e nas redações em razão da epidemia de cólera.

No ano de 1857, o grande destaque foi a apreensão de um navio carregado com 162 africanos, no porto de Sirinhaém, no dia 11 de outubro de 1855. Este fato desencadeou uma crise diplomática entre o Brasil e o Reino Unido da Grã-Bretanha. A troca de correspondência entre os dois governos sobre o assunto foi intensa, com o governo britânico cobrando uma ação mais efetiva do Brasil no combate ao tráfico negreiro.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, José Maria da Silva Paranhos, defendia que o Brasil não apoiava o desembarque de mais escravos no nosso território. Assim, em comunicado ao conde de Clarendon, o ministro relatava que o governo imperial havia tomado as providências para punir os responsáveis , apesar de reconhecer  que parte dos africanos havia sido desembarcada  e que nenhum integrante da tripulação tinha sido. E acrescentava: “A distância e a falta de freqüentes meios de comunicação  entre a província de Pernambuco e o Rio de Janeiro justificam a demora  na remessa das necessárias comunicações oficiais, sem as quais o governo não podia com justiça  segurança tomar nenhuma deliberação, ou mesmo afirmar como fatos reais asserções, que até então existiam somente no domínio de uma publicidade duvidosa”.

O ministro da Justiça, José Tomás Nabuco de Araújo, informava em ofício de 13 de fevereiro de 1856 que o navio capturado em Sirinhaém pertencia, “segundo todas as aparências “, a comerciantes do Estado Unidos. As investigações a respeito da reativação do tráfico de escravos envolveram a nossa legação imperial nos Estados Unidos. Os britânicos usaram o episódio ocorrido na costa pernambucana para insinuar que poderiam aplicar a “Bill Aberdeen”, lei aprovada em 1845 pela Câmara dos Lordes, que autorizava a marinha britânica a afundar qualquer navio que fizesse o transporte de escravos. De notar que o fim da escravidão não era defendido pelos britânicos por fins humanitários. Com o trabalho servil, os trabalhadores não poderiam comprar os produtos saídos das fábricas da Inglaterra após a chamada revolução industrial. O risco de ter seus navios afundados e a carga apreendida, os traficantes de escravos passaram a pouco e pouco a abandonar essa arriscada atividade, sabedores de que a armada britânica dominava os sete mares.

Assinale-se, por derradeiro, que em 1850 o Império do Brasil proibiu que navios negreiros aportassem no seu extenso litoral. E as investigações sobre a apreensão do navio em Sirinhaém apontaram Joaquim Inácio Riverosa d´Ouziga como o responsável pelo comércio ilegal, porém as autoridades não sabiam informar o seu paradeiro no Rio de Janeiro ou em Portugal.

Pernambuco era um local estratégico de desembarque em face de sua localização em relação à África e, também, pela necessidade dos senhores de engenho de mais braços  para a lavoura de cana-de-açúcar. Além de Sirinhaém, uma praia de Ipojuca também servia de escala para os traficantes de escravos africanos: Porto de Galinhas. “Galinha” era o termo usado numa alusão à “galinha d´Angola”. Assim, quando chegava uma partida de africanos, emissários do traficante partiam em direção às cidades e engenhos anunciando a chegada das “galinhas” numa forma ingênua para não desmoralizar de vez a autoridade policial.

Desde a nossa independência que os ingleses pressionavam o governo do novo País para que desse um fim ao tráfico de escravos, pois sua florescente indústria precisava colocar os seus produtos no nosso País. Em 1831, o Império do Brasil aprovou uma lei de extinção do tráfico. No entanto, tratou-se de uma lei apenas “para inglês ver”, uma vez que depois de sua aprovação mais de um milhão de negros entraram no País. Era uma lei simplesmente para constar, dentro da pressão exercida pelos ingleses. Dessa lei, surgiu a expressão do faz-de-conta, ou seja “para inglês ver”.

 

...

 

Notas:

1)      Para elogios, críticas, sugestões ou retificações, escreva para o autor através do e-mail orlandocalado@yahoo.com.br que obterá reposta e a devida atenção;

2)      Para ver centenas de fotos antigas e recentes de S. Bento e de sua gente, acesse o nosso sítio: www.orlandocalado.flogbrasil.terra.com.br e deixe seu comentário que será de grande valia para o conhecimento e divulgação de nossa gleba.

 

Pau Amarelo PE 23 de fevereiro de 2008

Orlando Calado é bacharel em direito.


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Coluna 4 - 22/09/2005 - As Vestais da Moralidade Pública
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Coluna 2 - 07/09/2005 - Tratamento de Excelência
Coluna 1 - 07/08/2005 - Hiroshima - uma covardia inominável


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