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Coluna 80: Fatos & gente são-bentenses de épocas diversas (2)
Publicada dia 05 de Maio de 2007

Fatos & gente são-bentenses de épocas diversas (2)

Em pesquisa a que procedi nos arquivos paroquiais de São Bento para saber as datas de nascimento dos irmãos do meu pai, tive a oportunidade de verificar que a família Manso assentou suas raízes na cidade há mais de cento e cinqüenta anos. Deparei-me com inúmeros registros de batizados e de casamentos de membros desse agrupamento familiar. Entre os mais antigos dos Manso, destaca-se a figura histórica de Felipe Manso Santiago que desempenhou o cargo de Presidente do Conselho Municipal, função, hoje, equivalente à de prefeito, no alvorecer da República brasileira.

José Manso da Silva, pai de Joãozinho Manso, era conhecido como Zé Manso, contudo os mais antigos da cidade o tratavam carinhosamente como Zé Lelê, filho que era do velho Quinca Lelê, a quem tive a oportunidade de vê-lo, todo santo sábado, sentadinho na mercearia e vidraçaria "Esperança em Deus", observando atentamente o movimento da matutada na loja a fazer suas compras de mantimentos como açúcar e café em grão ou a apreciar um vinho que Zé Manso mandava vir do Rio Grande do Sul e em muito superior aos "vinhos" fabricados na terra. Quinca Lelê era um homem elegante, sempre de palitó, colete, gravata, chapéu e bengala. Por esta razão, sua postura perfeita nunca me fez esquecê-lo, decorridos mais de cinqüenta anos. Segundo me informou o escritor Gilvan Lemos, Quinca Lelê foi um dos homens mais ricos de São Bento, comerciante, proprietário de terras, criador de bovinos e de gado miúdo, além de agricultor de subsistência.

Esse meu primeiro contato com os Manso ocorreu no início dos anos 1950 quando, aos sábados, eu ia ajudar meu cunhado Joãozinho, a troco de dez cruzeiros e do indefectível almoço preparado por Alzira, companheira de Zé Manso, cujo tempero não se coadunava com meu paladar. Este, por sua vez, foi o inventor de uma muito apreciada bebida a quem deu o nome de “Moreninha”, devido, evidentemente, à sua coloração, e que era uma mistura alcoólica em que se destacavam o cravo, a canela e outras cascas de árvores. Essa extraordinária química era capaz de derrubar o mais contumaz e afoito apreciador das delícias à base de álcool, ou melhor, à base de etanol que agora é palavra em evidência no Brasil e alhures. Zé Bocão, por exemplo, jamais conseguiu ir além da terceira dose. Era a bebida de Zé Manso uma espécie de “sossega leão”, bastando uma dose caprichada para fazer o mais pertinaz dos insones dormir profundamente. Era o remédio ideal para as pessoas portadoras de tristezas profundas e de depressão. É uma pena que a milagrosa fórmula não tenha sido revelada pelo seu autor.

Não conheci Zé Manso comandando a Banda Musical Santa Cecília. Ele foi um mestre dedicado e responsável que compunha dobrados e outras partituras próprias para esse tipo de formação musical. Não temos notícia de que essas partituras tenham chegado a nossos dias. Mais tarde, Zé Manso passou o comando da charanga são-bentense ao saxofonista Josué Severino da Silva, músico de elevado talento. Zé Manso sempre foi um cidadão respeitadíssimo. Além de músico, foi vidraceiro habilidoso, colocando com perfeição molduras em quadros do coração de Jesus ou em retratos de família. Ele foi respeitado político, tendo exercido com honestidade e dedicação o cargo de vereador nos anos que se seguiram à queda do Estado Novo. Na sua histórica casa, hoje infelizmente demolida para a abertura de uma rua que tem o nome dele, ele recebeu governadores e secretários de estado, entre eles o interventor Agamenon Sérgio de Godói Magalhães (1893-1952). Esse fato foi uma espécie de “Minha casa por um nome de rua”, parafraseando o título daquela obra “Meu reino por um cavalo”. Coisas são-bentenses que não sabem ou não querem dar valor aos nossos valores do passado.

Zé Manso tinha um irmão chamado Morel, homem de fala rápida e que passava jogo de bicho. Morel era pai de uma figura brincalhona e ao mesmo tempo séria, Toinho de Morel, de quem não posso esquecer, juntamente com sua mulher, pelo lauto almoço que foi oferecido ao seu primo João Manso da Silva Sobrinho (1928-1985) ao qual compareci. Isto ocorreu no meado dos anos 1970 pouco mais ou menos. Tanto Toinho como seu primo Joãozinho não mais pertencem ao mundo dos vivos. Joãozinho, uma figura são-bentense animadíssima e gastadeira, torcedor vascaíno doente, foi morar em Telêmaco Borba, Paraná, onde, anos mais tarde, faleceu repentinamente. Foi um dos são-bentenses homenageados pelo cronista Leone Valença no livro “Crônicas são-bentenses de anteontem”. Joãozinho, casado com Terezinha de Almeida Calado (1930), deixou os filhos Alberto Esdras ((1947) e José Luiz (1949). O primeiro deu prosseguimento à carreira de comerciante dos Manso em Telêmaco Borba e o segundo é desenhista técnico-industrial da Companhia Suzano de Papéis e Celulose.

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Joaquim Antônio de Melo, mais conhecido como Joaquim Gordo, se vivo fosse estaria com um pouco mais de cem anos. Quando criança, eu tive a oportunidade de conhecê-lo por volta da metade da década de 1950, como inspetor municipal de ensino. Era um homem extraordinário, culto, de tiradas humoristas e célebre contador de histórias. Contava essas histórias com tanta seriedade que nós, os circunstantes, éramos compelidos a acreditar na sua veracidade tão grande era seu talento de ator nato e de declamador de poesias. Como eu tinha por ele uma admiração toda especial, ofereci-lhe uma antologia de autores brasileiros e portugueses. Esse livro era um resumo da literatura luso-brasileira e continha os dados biográficos de cada autor com retrato desenhado e os melhores textos de cada um. Lembro-me que ele ficou deveras satisfeito, pois que aquele presentinho lhe seria bastante útil nas suas discussões a respeito dos melhores escritores e poetas, ensejando-lhe decorar textos em prosa e poesia para futuras apresentações perante amigos nas várias tertúlias que varavam as frias madrugadas são-bentenses e que versavam não somente sobre literatura, mas sobre assuntos gerais e até de vida privada. O lendário Joaquim Gordo nasceu lá para as bandas de “Fazenda Nova”. Era homem culto, estudioso de história, de geografia e tinha sempre aquelas perguntinhas de algibeira que lançava aos circunstantes como que para testar os conhecimentos da rapaziada. De certa feita, Joaquim discorreu, com propriedade, sobre os preparativos e a viagem da frota que viria descobrir a nossa terra lá pelos idos de 1500. Lecionou com propriedade a briga dos experientes navegadores (Vasco da Gama, Américo Vespúcio, Fernão de Magalhães), pelo comando da frota. Disse que dom Manuel I, o Venturoso, passou várias noites sem dormir, tentando escolher o condutor-chefe da esquadra que tinha como destino às Índias em busca das chamadas especiarias.Todos os três citados navegadores tinham notável experiência nessas viagens marítimas. Qualquer um desses comandantes que o rei escolhesse desagradaria aos outros também merecedores desse prêmio. Joaquim, então, disse que o rei teve um estalo e pensou em nomear para comandante um homem que não tivesse participado de nenhuma viagem marítima de longo curso. Foi aí que lembrou da figura de Pedro Álvares Cabral, alcaide e senhor de Azurra. Joaquim elogiou o tirocínio do rei dom Manuel I que agiu politicamente ao não desagradar completamente os três grandes navegadores. O pessoal estava satisfeito com a lição de história daquela noite quando, inopinadamente, Joaquim disse: "Cabral foi escolhido, mas agora eu lanço a seguinte pergunta: Quem foi o imediato de Cabral nessa viagem que descobriu o Brasil e que depois seguiu para as Índias?" Fez-se silêncio. Ninguém se manifestou. Joaquim tomou a palavra e disse: “O imediato de Pedro Álvares Cabral foi um indivíduo chamado Sancho de Tovar. Descobri este fato num velho livro de História do Brasil.” Anos mais tarde, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o autor destas linhas teve a oportunidade de pesquisar o assunto e confirmar o nome do imediato da frota cabralina.

Segundo Sebastião Cintra, Joaquim Gordo “contava histórias e ensinava História. Falava dos sábios da Grécia, da Roma dos Césares, dos hebreus sem pátria, da diáspora que durou milênios. Subitamente, digressionava na geologia, minuciando eras e períodos; deambulava na anatomia, às vezes formulando perguntas (- o esterno é osso ou cartilagem?) e ditando respostas estribado em irreversível verdade...”

Para não nos alongar muito, transcrevemos uma historinha de Joaquim Gordo contada por Sebastião Cintra numa crônica intitulada “As ubaias do Senhor” que, na verdade, é um resumo de um conto chamado “O Mestre e sua peregrinação”:

“Jesus levou os apóstolos a chupar ubaias nas matas da Galiléia. No instante em que todos se fartavam, estrugiu uma voz oculta e misteriosa, sonorizando os acordes de uma canção. Ao ouvi-la, os apóstolos entreolharam-se atônitos e, entre si, indagavam: que voz tão maviosa é esta?

Pedro, dentre eles, o mais íntimo de Jesus, perguntou: Mestre, que voz é esta, que irradia unção espiritual tão bela? Jesus, impassível na sua postura messiânica, respondeu: Pedro, em verdade eu vos digo: é o Lindomar Castilho, cantando uma flor, somente uma flor”.

Joaquim Gordo foi uma figura maravilhosa que encantou a todos os que tiveram o privilégio de com ele conviver. Tanto isso é verdade que o juiz de direito Alfredo Pessoa de Lima, lá pelo final dos anos 1930, homenageando São Bento, elogiou a figura impagável desse são-bentense do sítio Fazenda Nova que veio ao mundo no final do século XIX:

São Bento

Praça em quadrado, alta, branca e bela,
Igreja ao fundo; casas pequeninas,
Como bando de aves peregrinas,
Reunidas no aconchego da capela.

Feira e mercado. A gente tagarela
Falando sempre em coisas pequeninas:
Marcas de gado, balas assassinas,
Que abateram alguém lá na cancela.

Acocorado, Joaquim Gordo fala.
Em derredor, a tropa toda cala,
Escutando mentiras engraçadas.

São Bento amiga, de feições singelas,
Tuas casinhas, eu tenho sempre nelas
Visões de altas torres encantadas.


E-mail:
OrlandoCalado@yahoo.com.br








Pau Amarelo PE 05 de maio de 2007

Orlando Calado é bacharel em direito.


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Coluna 4 - 22/09/2005 - As Vestais da Moralidade Pública
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Coluna 2 - 07/09/2005 - Tratamento de Excelência
Coluna 1 - 07/08/2005 - Hiroshima - uma covardia inominável


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