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Coluna 87: Fatos & gente são-bentenses de épocas diversas (9)
Publicada dia 23 de Junho de 2007

Fatos & gente são-bentenses de épocas diversas (9)

Seu nome para nós era apenas Marcelino, nunca soubemos o seu sobrenome nem procuramos saber. Era muito conhecido e não precisava de adendo ao nome. O fato é que Marcelino era uma bela figura de artista latente, mas que em função do meio que vivia não lhe foi possível galgar fama de cantor ou mesmo de locutor-propagandista pois, para tanto, lhe faltava a necessária "leitura". Nos anos iniciais da década de 1950, Marcelino de porta-voz de flandres em punho, feito na oficina de Zezé Gordo, fazia propaganda dos tecidos e das miudezas vendidos na mais elegante loja de São Bento que era, sem favor algum, a Casa Osvaldo Maciel. Marcelino tinha muitos filhos, um dos quais chamado Babá, mulato como o pai, dono de uma voz possante e tremida de cantor como era comum naqueles tempos onde os discos de 78 rotações por minuto exigiam um esforço sobre-humano, vez que o sistema de gravação era por demais precário. O filho de Marcelino era sempre requisitado para acompanhar pretensos seresteiros nas madrugadas orvalhadas de nossa terrinha. Os ensaios, via de regra, eram realizados nos reservados dos bares, notadamente no Lux Bar, de Jefferson Raimundo, e acompanhados por bebidas quentes. Cantavam-se aquelas canções brejeiras, valsinhas famosas gravadas por Carlos Galhardo ou sambas-canções do mais famoso cantor brasileiro da época, Orlando Silva.

E lá estava o filho de Marcelino, por alguns trocados, abrindo a voz portentosa e mostrando aquele pomo-de-adão proeminente que o caracterizava. Já o pai não mais era afeito a serenatas, preferia usar o porta-voz seja no Jazz Band Batuta, como crooner seja nas ruas empoeiradas de São Bento a propagandear as vantagens de se comprar aquele corte de diagonal da Torre para as festas que já se avizinhavam. Sua atividade de propagandista ainda teve o mérito de sobreviver mesmo quando em São Bento do Una foram instalados os serviços de alto-falantes que deram outra animação à cidade. Ouvíamos, toda noite, os mesmos sucessos da música popular brasileira anos a fio e o interessante era que os apaixonados dedicavam números musicais a “alguém que muito quero” ou a “você já sabe”. A primeira música a ser executada, invariavelmente, todo santo dia, era a valsinha chamada “Saudades de Ouro Preto” que Zé Relojoeiro dedicava a um amigo, cujo nome nossa memória não conseguiu reter. Felizmente, a inauguração desse novo meio de comunicação não fez cessar as atividades de propagandista de Marcelino, que era um homem alegre e gozador típico que gostava de criar bordões um dos quais me lembro até hoje: “Outro gol?”, criado para um dos carnavais, possivelmente o de 1955. Marcelino era, por assim dizer, uma figura muito popular na cidade e sua memória de cantor e propagandista não pode ser olvidada assim como a do seu filho, o violonista Babá de Marcelino.

Recorro-me a Leone Valença nas suas preciosas “Crônicas são-bentenses de anteontem” para saber de fatos relacionados às nossas duas personagens. Nosso cronista ao recordar gente bentunense de seu tempo de menino destaca entre outras a figura de Marcelino fazendo propaganda do Cine Trianon (que ficava onde hoje está instalado o Conselho Tutelar), aos berros, nas pontas de rua ao pôr do sol. Noutra crônica relativa ao enterro de Quinca Carneiro, Leone lembra que o cortejo não cabia na rua. Não pelo fato de que houvesse muitos acompanhantes, tal como uma procissão de Reis, mas porque os carregadores do caixão, colegas do morto, alcoolizados, não se aprumavam no meio da rua. Vendo esse desmantelo todo, Marcelino tomou a frente e, fazendo às vezes de baliza, conseguiu conduzir o féretro até a hoje esquina do “Self-Service de Miguelito”, onde o cortejo seguiu em linha reta, por sua conta e risco, até o cemitério, sem atrapalhar o trânsito.

Em outro episódio envolvendo o furto de uma perua, a dona da penosa deu parte de Quitéria Rato na delegacia de polícia, acusando-a pelo sumiço. Norberto, companheiro de Quitéria, homem honrado, “ficou numa situação difícil”, pois não podia delatar a mulher nem tão pouco queria ser preso. “A solução mais viável”, escreveu Leone, “seria a de procurar o aconselhamento de alguém mais entendido: o primo Marcelino. Depois de ouvir atentamente Norberto, que comera da perua inocentemente, Marcelino sentenciou:
Não tem o que saber: comeu do furto, vai pra gaiola, adeus viola”.

Discorrendo a respeito dos atropelos que existiam para se assistir a um filme no Cine Trianon de dona Pânfila, sobrinha do Barão de Suassuna, com os longos e intermináveis intervalos para a troca de rolo do filme já que a casa de diversão possuía apenas um projetor, ou em razão de uma inevitável quebra de fita, o nosso cronista lembra que a sala de projeção ficava tomada pelos vendedores de comedorias diversas, tal qual uma rua baiana. Babá de Marcelino, para ganhar uns trocados e ajudar o velho pai “vendia um bolo muito popular, achatado e tostado, de leve assemelhado a uma palmilha velha, cujo nome era chulé”. E acrescenta: “Chulé” era ótimo.

Já no Cine Teatro Rex, situado na antiga Avenida Manoel Borba n° 65, inaugurado em 1945, com 400 lugares, Leone registra que, terminada “a sessão, entre tosses e pigarros, Babá brinda o público com uma nova música de Carlos Galhardo”. Nossos conterrâneos Marcelino e seu filho Babá eram pessoas que se “viravam” para sobreviver, talvez por não terem vocação rural nem chão apropriado para botar um roçado ou criar gado pequeno, como cabra e ovelha, usavam seus talentos artísticos. Até num rústico cabaré, localizado no Buraco do Tatu, Quitéria Rato e seus freqüentadores dançavam ao som do cavaquinho de Babá de Marcelino.

São Bento era assim: pacata e ingênua, com seus tipos característicos, seus artistas, seus poetas, seus doidos, seus pobres e miseráveis dos Sete Ranchos. Mas, todos, quase sem exceção, passavam necessidades, mas não eram capazes de se insurgir contra aquele “status quo” desenhado no decorrer dos séculos, como uma miniatura cruel de um País de povo pobre e miserável, com a pior distribuição de renda do planeta Terra, e sem grandes perspectivas de melhorias, uma vez que a elite branca do País se apoderou de tudo: das melhores escolas e universidades, dos melhores empregos, dos melhores cargos do serviço público e os políticos vorazes sempre pensando nas próximas eleições e se apropriando do pouco que resta para se dar a esse povo a esperança de melhores dias. Diferente dos Estados Unidos e outros países, como o Uruguai, nossas cidades são sujas e muitas ruas não possuem nem mesmo calçamento, embora todos os anos sejamos obrigados a pagar o Imposto Predial sem ver nenhuma melhoria nas nossas ruas e artérias.

Pobre povo, pobre País que não merece essa classe política que tem, gente ansiosa em fazer da coisa pública um negócio particular, como pagar pensão alimentícia através de conhecida empreiteira de obras públicas. Pobre povo, tão sofrido e tão enganado. Poucos são os que se salvam neste mar de lama em que o País sempre esteve atolado.

Que futuro poderemos oferecer às novas gerações, carentes de tudo? Quando os políticos e juizes farão alguma coisa de concreto para tirarmos o País dessa roubalheira insana? Por que não se cria um tribunal especial para julgar todos os ladrões do povo e todos os que prevaricaram?

Achamos que nunca. País do futuro continuaremos a ser. Só que esse futuro jamais chegará. Um País de leis que não pegam ou deliberadamente não são cumpridas. Parlamentares criando verba indenizatória como sendo um aumento disfarçado de rendimentos em flagrante desrespeito à letra legível da Constituição ou querendo fixar novos subsídios por simples atos das mesas da Câmara e do Senado sem ouvir o plenário como manda a lei. Foi necessária uma decisão do Supremo para que esses camaradas não tivessem um aumento de mais de noventa por cento.

Pobre país, povo cordeirinho, a se contentar com migalhas. Marcelino e Babá eram pobres, filhos de pobres, netos e bisnetos de pobres, porém nunca se apropriaram do alheio, enfrentavam qualquer situação para ganhar o seu suado dinheirinho seja aos berros pelas pontas de ruas de São Bento anunciando o filme do fim de semana, seja vendendo bolo no cinema ou tocando cavaquinho num tosco cabaré do Buraco da Tatu lá para as bandas dos Sete Ranchos.

Façam, senhores políticos, alguma coisa pelo povo. Façam, senhores magistrados, o seu dever punindo aqueles que se locupletam com o suor do povo brasileiro e que têm contas em paraísos fiscais.

O País continuará com seu povo pobre se este estado de coisas permanecer, com obras paradas, superfaturadas, com medições inexistentes ou feitas a maior para que parte do dinheiro seja distribuída em favor de políticos e funcionários corruptos.

A Babá e Marcelino, assim como todos os pobres e miseráveis de minha São Bento, de ontem e de hoje, pedimos desculpas, pois também nos sentimos indiretamente culpados por vocês não terem podido desfrutar uma vida normal e sem atropelos, com estudo e trabalho digno e convenientemente remunerado, como todo brasileiro tem direito, pois somos um País rico de povo pobre e miserável, herança colonial maldita que atravessa os séculos sem solução.

Vamos sepultar de uma vez por toda essa nossa sina ibérica de Estado perdulário, ineficiente e corrupto. Perdulário porque gasta mal o que arranca do sofrido povo brasileiro e também porque não sabe eleger as prioridades; ineficiente porque não consegue resolver nossos problemas e mazelas seculares, como essas coisas como educação e saúde de qualidade; e, por fim, corrupto porque os agentes públicos desde os tempos da colonização acham que é normal desviar os parcos recursos do erário para satisfazer caprichos pessoais e enriquecer sem causa grande parte da classe política, já que as exceções são contadas nas pontas dos dedos.

Que país é esse? Quando, senhores, seremos uma Nação rica, solidária e fraterna?


E-mail:
orlandocalado@yahoo.com.br

Fotos recentes de São Bento do Una (março de 2007), veja-as acessando e favoritando o seguinte sítio: www.orlandocalado.flogbrasil.terra.com.br

Pau Amarelo PE 23 de junho de 2007

Orlando Calado é bacharel em direito.


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Coluna 4 - 22/09/2005 - As Vestais da Moralidade Pública
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Coluna 2 - 07/09/2005 - Tratamento de Excelência
Coluna 1 - 07/08/2005 - Hiroshima - uma covardia inominável


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