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Coluna 213: É duro ser um brasileiro comum, pagador de impostos
Publicada dia 18 de Julho de 2013

É duro ser um brasileiro comum, pagador de impostos

Sobrevivi à inflação galopante deixada pelo pior presidente da história do Brasil, um cara chamado Juscelino Kubitschek, que construiu em Goiás uma cidade que hoje é sustentada com o suor e a penúria do povo brasileiro.

Esse camarada construiu uma cidade, transportando material de construção em avião da Força Aérea (FAB). Deixou, como legado, às gerações seguintes, o dragão da inflação, que foi uma das causas da renúncia do presidente Jânio da Silva Quadros e do golpe militar de 1964 contra o presidente constitucional João Belchior Marques Goulart, mais conhecido como Jango.

Juscelino Kubitschek implantou, no país,o lixo da indústria automobilística dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Ou seja, projetos que não deram certo por lá ou que já estavam ultrapassados tecnologicamente, nos seus países de origem, foram a grande atração para nosso povo, que logo viam seus carrinhos definhando. Quem, dos mais velhos, não se lembra de veículos como o Dauphine, a Rural, DKW Vemag, Gordini, Aero Willians, Simca. Ele acabou com as reservas técnicas monetárias dos antigos institutos de previdência (IAPETEC, IAPI, IAPM, IAPC,IAPB), hoje reunidos no leviatã chamado de INSS, para a construção de BrasIlha.

Durante muitos anos, a Previdência Social acumulou somas apreciáveis de dinheiro, pois havia muitos contribuintes ativos e uma parcela mínima de aposentados e de pensionistas. Ele acabou com a nossa rede ferroviária e investiu em estradas de rodagens, sem antes recuperar a malha ferroviária.

Enfim, sofremos quase 40 anos de inflação e dívida externa. Ficamos esse tempo todo nas mãos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Éramos sempre humilhados, pois tínhamos que assinar as famosas "cartas de intenção", cujas metas nunca eram cumpridas integralmente. O então ministro da Fazenda, Delfim Neto, que o diga: quantas vezes teve que assinar e não cumprir todas as determinações do FMI,que em última análise representava, como ainda representa, os banqueiros dos países desenvolvidos e emprestadores de poupança, já que nunca fomos um povo de guardar dinheiro para se ter um futuro menos sombrio no fim da vida.

Pobre país que não conhece sua verdadeira história. BrasIlha foi seu maior erro, um erro que consumiu recursos incalculáveis, como hoje consome muitos recursos a ponto de a cidade ser o local brasileiro de maior renda per capita. Também, com um motorista do Senado ganhando mais do que um piloto de supersônico da Força Aérea!

Não mais havia necessidade de se tirar a capital do litoral porque os tempos eram outros e os mecanismos de defesa, aérea e naval, mais potentes. Era uma teoria do século 19 quando não havia aviação e o canhões dos navios de guerra eram potentes por demais. Uma das justificativas apresentadas, na época, seria a conquista do Oeste com a implantação da nova capital no coração verde da Pátria em Goiás. Na verdade, quem conquistou o Oeste foi uma plantinha chamada soja, cujo cultivo está desmatando grandes áreas da Amazônia.

A transferência da capital do Rio de Janeiro para BrasIlha foi muito danosa para a economia do país, ainda "essencialmente agrícola" como dizia os compêndios de geografia da primeira metade do século 20. Os funcionários públicos, civis e militares, lotados no Rio de Janeiro, foram transferidos com o salário duplicado. Os outros poderes pintaram e bordaram com a contratação, principalmente, de assessores parlamentares e judiciários.

No Rio de Janeiro, no Palácio Tiradentes ou no Palácio Monroe, deputado e senador comum não tinha gabinete nem empregados. Para datilografar um projeto de lei tinha que pedir um datilógrafo à secretaria da Câmara para fazê-lo. A maioria dos deputados federais e senadores moravam no Rio de Janeiro e muitos deles em pensões da Rua do Catete, Largo do Machado, Bento Lisboa, Laranjeiras e adjacências. Não tinham mordomias nem verba indenizatória nem outros penduricalhos. Deputados e senadores usavam os bondes da Light para ir às suas respectivas câmaras.

O Senado ficava na Cinelândia, cujo prédio histórico foi derribado sob o pretexto de que era necessário para a passagem do Metrô e no fim das contas o Metrô não passou coisa nenhuma por onde era o suntuoso prédio do Senado, cuja demolição foi autorizada pelo presidente Ernesto Geisel numa época em que ainda não estávamos preocupados em preservar os prédios de valor histórico e sentimental. O Brasil antes de BrasIlha era assim.Um país real. Políticos bem preparados e decentes. Um país sem mordomias e sem gastos misteriosos com passagens aéreas, utilização de aviões da Força Aérea, centenas de assessores parlamentares. As leis antigas eram de boa feitura. Quem se dispuser a pesquisar para saber quem eram os senadores e os deputados federais de 1946 a 1960, por exemplo, verá que eram homens que se sentiam honrados em representar seus Estados e respectivas populações e não eram aventureiros. Eram bacharéis em direito, médicos, engenheiros, militares e pessoas de outros segmentos, mas tendo como princípio geral o patriotismo, o acendrado amor à Pátria e o desejo de servi-la e não dela tirar proveito próprio ou em favor de familiares e amigos.

Homens como João Café Filho, deputado federal potiguar, vice-presidente da República e que assumiria a presidência do país com o suicídio do presidente Getúlio Vargas em agosto de 1954. Pois bem, em 1960, quando da inauguração do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, seu primeiro governador eleito pelo povo, sabedor de que a família do ex-presidente Café Filho passava necessidade com sua diminuta pensão, teve que nomeá-lo ministro do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara (anos depois os titulares dos tribunais de contas passaram a ser chamados de "conselheiros"). Por aí se vê, que era um homem honesto e que morava num apartamento simplório no bairro de Botafogo.

A construção de BrasIlha enriqueceu muita gente. Até dono de velho e ronceiro caminhão transportador de areia para a obra montou empresa de ônibus e hoje é dono de empresa aérea que desponta como a maior do país.

Foi uma das maiores farras com o dinheiro público e sem os menores controles e assim os fornecedores de materiais de construção deitavam e rolavam.

Hoje, um senador federal custa uma fábula aos cofres públicos e ao Brasil tão carente de educação, saúde, saneamento, habitação popular. Nosso parlamento não vota as leis que regulamentam dispositivos constitucionais. Não se vota nem se cogita de votar a lei de greve dos funcionários públicos em geral nem a lei que regulamenta o aborto e outros temas que eles fogem como o diabo foge da cruz conforme reza o dito popular.

Deputados e senadores ficam cozinhando o galo e reclamando das "medidas provisórias". Ora, os caras só "trabalham" dois dias por semana e estão sempre em visita às suas "bases". Na minha sincera opinião, eles deveriam morar em BrasIlha e passagens aéreas gratuitas só teriam nas férias de 30 dias como qualquer mortal que nem passagem aérea tem quando sai em gozo de merecidas férias.

Por ocasião das manifestações de junho (2013), deputados e senadores tiraram das gavetas e escaninhos mofados e amarelecidos projetos de leis que dormiam há décadas. Foi uma forma de dizer que estão trabalhando e ouvindo a "voz rouca" das ruas das grandes cidades do país. Os funcionários da Câmara e do Senado terão muitas horas extraordinárias de trabalho árduo nos gabinetes parlamentares. Se já percebiam horas extras em recesso parlamentar, avaliem agora quando tiveram que "trabalhar" de verdade.

Uma coisa que nunca consegui compreender é como muita gente pobrezinha fica rica em tão pouco tempo, exercendo cargos de presidente, governador, senador, deputado federal e estadual, prefeito, vereador, ministro, secretário estadual, secretário municipal. Para concluir esta salada de palavras, seguem estas perguntinhas e suas respostas: para que servem 513 deputados? Ora, servem para a farra continuar, 250 estava bom até demais. Para que o Senado com 81 sanguessugas 16 dos quais biônicos? O Senado serve para atrasar o processo legislativo e consumir mais de dois bilhões de reais por ano. Para que 27 vice-governadores? Servem para composições políticas quase sempre espúrias. Para que servem 5.564 vice-prefeitos? Ora, servem para sugar ainda mais nossos parcos recursos e os prefeitos ficam reclamando mais dinheiro em BrasIlha. Para que servem 1059 deputados estaduais e 59.542 vereadores? Acho que servem para nada a não ser mamar boa parte daquilo que os cidadãos recolhem de imposto.

São verdadeiros carrapatos a sugar o sangue dos brasileiros até a morte nos hospitais da rede pública e conveniada. Podem ficar tranquilos, amigos e amigas, que reforma política com essa gente que aí está não vai ser profunda. Para que coligações? Por que não se implanta o voto majoritário para deputado e vereador? Não podemos continuar votando numa pessoa e elegendo outra, um fariseu.

Na minha modesta opinião, que nunca seria levada avante, uma reforma política só seria possível sem políticos profissionais ou amadores. Uma Assembleia Constituinte que fosse formada por pessoas dos mais diversos setores de atividade que terminando os trabalhos e promulgando a Reforma fossem para casa e se tornassem inelegíveis para todo o sempre.

Reforma política com esses políticos que aí estão será apenas "perfumaria", enganação. Estamos cansados de tanta pouca vergonha. Só falta o povo voltar às ruas e exigir a moralização que se faz necessária no trato da coisa pública.

Um dia, não muito longe, seremos uma nação governada por gente séria e competente, sem nepotismo e sem assaltos aos cofres do Erário. Para tanto, espera-se que não seja necessário a turba invadir as casas legislativas e expulsar essa gente que só pense em si, na família, nos amigos e em se locupletar com o suor do nosso povo trabalhador.


Orlando Calado é bacharel em direito.

Pau Amarelo PE 18 de julho de 2013

Orlando Calado é bacharel em direito.


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Coluna 4 - 22/09/2005 - As Vestais da Moralidade Pública
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Coluna 2 - 07/09/2005 - Tratamento de Excelência
Coluna 1 - 07/08/2005 - Hiroshima - uma covardia inominável


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