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Coluna 222: Breve História de Adelmar Paiva e do seu tempo (2)
Publicada dia 23 de Junho de 2014

Breve História de Adelmar Paiva e do seu tempo (2)

O NASCIMENTO


Os flamboyants primaveris já começavam a florir. A cidade de São Bento, apesar do seu diminuto tamanho, era uma cidade alegre, festeira e de muito sol, porém com noites de temperatura agradabilíssima. Por ocasião das festas de fim de ano, a Municipalidade, através de seu código de posturas, determinava que todas as casas fossem caiadas, fato que chegara a impressionar os visitantes, especialmente o jornalista Gonçalves Maia, que, no início do século 20, não se furtou de elogiar a novel cidade nas páginas do conceituado jornal recifense "A Província" seja quanto à limpeza, seja quanto à generosidade do seu povo que sempre recebia os visitantes de braços abertos. Nesse contexto interiorano, nascia, na sexta-feira, 09 de setembro de 1911, o menino Adelmar que na pia batismal da matriz receberia os santos óleos, ministrados pelo bom, amado e reverendíssimo sacerdote, Joaquim de Albuquerque Melo, pároco da Igreja do Bom Jesus Pai dos Pobres e Aflitos. Com pouco mais de oitocentos habitantes, a pequena e jovem cidade estava em festa com o nascimento do filho primogênito do casal Adalberto de Oliveira Paiva e Zulmira de Almeida, esta era filha de Maria Augusta e Henrique de Almeida, natural de Alagoinha então distrito de Pesqueira, e neto de Rodolfo Monteiro de Paiva e de Joana de Oliveira.


Aliás, a bem da verdade histórica, Adelmar não fora o primeiro neto de Rodolfo. Adalberto em solteiro fora um verdadeiro "don juan" e arrasa quarteirão. Ele teve um rumoroso caso de amor com uma bonita moça são-bentense chamada Caetana, nascida em família de poucos recursos. Dessa união, nasceram Alberto (1906) e Júlia (1907). O pai de Adalberto não aprovou essa união e propôs a Caetana criar e educar os dois filhos dela com tudo de bom e do melhor, mas com uma condição sine qua non: que ela deixasse São Bento para todo o sempre. Para tanto, proveu-lhe de alguns contos de réis. Como era mulher de origem humilde, sem alternativa e com o coração na mão, aceitou a proposta do coronel Rodolfo e se retirou, com os pais, definitivamente de São Bento com dinheiro suficiente para comprar uma casinha em localidade distante. De Caetana, não mais se soube notícia. A moral religiosa da época era rígida e por isso condenável a geração de filhos fora do casamento celebrado na Igreja Católica, pois que eram discriminados e considerados ilegítimos ou filhos naturais.


A PEQUENINA CIDADE DA ÉPOCA
Poder-se-ia dizer, sem receio de errar, que diante da extrema pobreza existente no município de São Bento, Adelmar de Almeida Paiva nascera em berço de ouro, numa família de prósperos comerciantes do ramo de panificação, de farmácia e de compra e venda de algodão, além de exercer atividades como chefes políticos, tanto o avô paterno, Rodolfo, que anos mais tarde seria eleito prefeito, como seu pai que, também, por duas vezes esteve à frente da Municipalidade são-bentense. Avô e pai de Adelmar Paiva eram, sem dúvida, figuras proeminentes na vida da cidade. De mais a mais, o avô, Rodolfo, era coronel e o pai, Adalberto, tenente-coronel e comandante superior da antiga Guarda Nacional em São Bento.


Adalberto, não obstante este nebuloso fato, foi muito disputado pelas moças casadouras de São Bento como diria o cronista Leone Valença. E como o pai, Rodolfo, era homem de recursos, possuindo terras em sítio para a criação de gado e plantação de milho e feijão, uma farmácia onde preparava os sais e unguentos, uma bolandeira para descaroçar o algodão que comprava aos produtores da localidade, além de ser o afamado fabricante das bolachinhas "Sertaneja", marca devidamente registrada no Departamento Nacional do Comércio, sediado no Rio de Janeiro então capital da República.


Voltando ao nascimento de Adelmar em 1911, o dia seguinte caiu num sábado de feira, o avô Rodolfo mandou preparar várias garrafas de um delicioso "cachimbo", que é uma mistura de aguardente, mel de uruçu e fruto da época, para ser servido aos fregueses, amigos e ao povo em geral, tendo como acompanhamento as deliciosas bolachinhas que tinham os nomes de "canela", "sertaneja", "primor", "regalia" e "comum", de sua fabricação. Girândolas de fogos e salvas de foguetões se fizeram ouvir, noite adentro, a léguas de distância, anunciando a boa nova.


O tenente da Guarda Nacional, Liberato Siqueira, no comando da Filarmônica de Santa Cecília, desfilou pelas poucas ruas da cidade em regozijo pelo nascimento de Adelmar, parando em frente à Padaria Sertaneja para saudar a família Paiva por tão belo e esperado acontecimento. O prefeito Luiz Salustiano dos Santos se fez presente na casa de Adalberto Paiva para cumprimentá-lo por tão faustoso acontecimento.


Nesse tempo, não havia iluminação elétrica. A iluminação pública havia sido inaugurada em 1899 e era constituída por apenas seis lampiões a querosene. E a iluminação elétrica só chegaria a São Bento em 1925. No início do século 20, havia poucas casas comerciais, a mercearia de secos e molhados de Joaquim Manso da Silva Sobrinho, mais conhecido como Quinca Lelê, a loja de tecidos de Jerônimo Tertuliano de Morais no sobrado, ainda existente, localizado na hoje Praça Cônego João Rodrigues. De notar que esse belo sobrado fora construído pelo português João José Ferreira, o mesmo que construiu, com seus próprios recursos, e explorou, por vários anos, as rendas do antigo Mercado Municipal que seria demolido, em 1940, na fértil e proveitosa administração do prefeito Manoel Cândido Carneiro da Silva (1939-1941) que construiu ao seu lado o belo prédio da prefeitura que resistiu estoicamente até ser injustificadamente demolido, mais de cinquenta anos depois, na administração do prefeito Lêucio Mota (1989-1992). Havia, ainda, em São Bento, na virada do século 19 para o século 20, meia dúzia de armazéns de compra e venda de milho, feijão, mamona, algodão, farelo e semente de algodão e uma máquina rudimentar chamada "bolandeira" para o descaroçamento e benefício do algodão.


A CONTURBADA SITUAÇÃO POLÍTICA DA ÉPOCA
No ano de nascimento de Adelmar Paiva, 1911, a política pernambucana passava por um período de acentuada turbulência com as forças da situação lutando, literalmente, para manter, a todo custo, a oligarquia inaugurada por Rosa e Silva desde 1896. Esta era apoiada pelas forças políticas municipais ao passo que seu oponente, general Emídio Dantas Barreto, tinha ao seu lado a força, representada pelo 49ª Batalhão de Caçadores do Exército. Na Rua da Imperatriz, no Recife, em frente à antiga casa de teatro Helvética, no dia 18 de outubro, deu-se renhido e sangrento confronto entre pessoas do povo e um esquadrão de cavalaria do Exército, sob o comando do capitão José de Lemos que, em razão dos ferimentos sofridos, veio a falecer. A morte do oficial trouxe apreensão ao governo do Estado que determinou ao chefe de polícia a imediata suspensão de todo tipo de passeatas, manifestações e comícios até que os ânimos serenassem por completo.


Realizadas as eleições para o governo de Pernambuco, com os candidatos Rosa e Silva, pela situação, e Dantas Barreto, pela oposição, a animosidade entre os dois grupos políticos recrudesceu, mormente quando o Diário de Pernambuco, cujo proprietário era o próprio candidato Rosa e Silva, anunciou em manchete a vitória deste. É evidente que os partidários do general Dantas Barreto não aceitaram o resultado, alegando fraudes e conchavos nos mapas eleitorais.


Incidentes violentos ocorreram no centro da capital e em alguns arrabaldes. Os "dantistas" não se conformaram com a vitória dos "rosistas". Houve, então, uma tremenda balbúrdia com paralisação dos bondes, fechamento de cinemas e de casas comerciais e o temor de que a população saísse às ruas. Principalmente nas Ruas da Aurora e do Imperador e na Praça da Independência, ocorreram vários tiroteios no dia 12 de novembro, sendo que o objetivo dessas escaramuças era a sede e redação do Diário de Pernambuco que como dissemos antes pertencia ao candidato da situação, Rosa e Silva.


Nesse mesmo dia 12, o Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, foi atacado por grupos populares, com o apoio da força do Exército. Em outro momento, o palácio foi atacado por tiros provindos do forte do Brum que, por pouco, não atingiram o governador Estácio de Coimbra, correligionário e pessoa de total confiança de Rosa e Silva. Após esse incidente, o governador passou a despachar na chefatura de polícia. Segundo os jornais da época, em 24 de novembro a polícia passou a revistar as pessoas nas ruas, os trens de ferro pararam e as faculdades suspenderam as provas. Ocorreu um tiroteio contra o Ginásio Pernambucano e a cidade do Recife voltou a viver horas de sofrimento, incerteza e angústia. Jornais portugueses e franceses noticiaram os sucessos da capital de Pernambuco. Quando o governador Estácio de Coimbra, pede, enfim, a intervenção federal é que os ânimos serenaram e a situação foi normalizada. O Congresso de Pernambuco, formado pelo Senado Estadual e a Câmara dos Deputados, é convocado e proclama governador o general Emídio Dantas Barreto que vencera Rosa e Silva por uma diferença de 1.164 votos, marcando o fim do "rosismo", a oligarquia que permaneceu no poder de 1896 a 1911.


Dessa forma, foi nesse clima de efervescência política em Pernambuco que o menino Adelmar Paiva viveu os seus três primeiros meses de vida. É claro que houve reflexo na política municipal a divisão das forças políticas entre o "rosismo" e o "dantismo", mas o entendimento prevaleceu em nível municipal, abrindo a possibilidade de Rodolfo Paiva ser prefeito de 12 de dezembro de 1916 a 01 de março de 1919, sendo substituído pelo filho, Adalberto, que exerceu o mandato de 01 de março de 1919 a 02 de agosto de 1922, época áurea do predomínio político dos Paiva em São Bento.



(continua)

Pau Amarelo PE 23 de junho de 2014

Orlando Calado é bacharel em direito.


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Coluna 8 - 24/10/2005 - Correio eletrônico, maravilha do nosso tempo
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Coluna 4 - 22/09/2005 - As Vestais da Moralidade Pública
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Coluna 2 - 07/09/2005 - Tratamento de Excelência
Coluna 1 - 07/08/2005 - Hiroshima - uma covardia inominável


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